terça-feira, 22 de maio de 2012

Homem-Vontade



O homem é vontade, desde que existe isso é tudo que somos, uma potência em movimento, desafiando brevemente o tempo e espaço. É aqui a síntese do que é ser. Ser é querer, aquilo que não quer, não é, é isto ou aquilo. O homem é uma vontade, uma vontade vestida de animal primata bípede, e isso é o que lhe é distinto. Antes de ser o homem, o predador dos predadores, esse tenebroso animal frágil e capaz, o homem era um animal com vontade. Alguns aqui podem discordar, mas o fazem por ser medíocres, pois o homem é o único ser com livre-arbítrio, e antes que me alcunhem de fanático, permita-me a chance de calar vossa objeção. Não há no código genético, nem habita em nossa auto-preservação ou move nos nossos instintos um sentido que nos determina subir o Everest. Olhem ao redor, nenhum animal inapto para sobrivever ali comete o desparate de escalá-lo. Gorilas nunca deixaram suas florestas, nem mesmo para sobreviver. Não há relatos de chimpanzés, bonobos ou gibões fazendo migração em locais ermos, habitando distâncias as quais não estão adaptados a sofrer a longa marcha ao destino - e é exatamente por isso que o primeiro homem evoluiu, porque sua vontade não reconhece o limite. Nós somos vontades, livres, muito mais assoberbadas do que Schopenhauer, Freud, Jung, Nietzsche, Kant, ou qualquer outro possa querer crer. No homem habita uma potência de último grau, uma vontade indeterminável, capaz de subjugar tudo que existe se não estivesse limitada no tempo e no espaço. Deus fez bem, na verdade, somos imagem e semelhança Dele, exceto nisso. Somos vontades habitando o tempo e espaço, reprodução da Vontade que nos criou. Somos aqueles que são, criação Daquele Que É. Somos aqueles que querem, criatura Daquele Que Quer. Deus também é vontade, e como vontade não importa razão. Razão alguma subjuga o querer. Homens queriam voar, homens inteligentes e racionais, eles morreram tentando, vejam, eram gênios, mas entre a vontade e a razão, eles mataram a segunda, e eles estavam errados? Não, os homens voam! Sim, que irá dizer contra esse fato? Os homens estão no profundo oceano, os homens habitam o espaço, os homens desafiaram os pássaros, e venceram, sempre foi assim. Nós desafiamos os animais, e os vencemos. Só resta-nos desafiar-nos, isto é, já estamos nos desafiando, sempre estivemos, só falta que um homem vença - ou não. Só falta evoluímos, ou sermos julgados por tanta soberba, tanta vontade sem escrúpulos, tanto querer injusto, tanto, tanto, tanto... O homem é uma vontade, Deus meu livre-me da sua determinação.

Poesia-Denúncia


Eu me determinei por um tempo
ser fiel trovador queixoso
das perversões da sociedade,
das invenções malditas na cidade,
dos crimes dos quais todos são culpados;
escrevendo versos de aversão às barbaridades
eu fechei-me no meu mundo isolado,
descrevendo pelas janelas dos olhos solitários,
bebendo do suor desses olhos exaustos
toda a inspiração necessária para a denúncia do mal.

Nisso, porém,
recebi uma notícia terrível
algo triste sim, irremediável,
isto deixou-me perplexo...

Quando li,
o escrito, após anunciado,
descobri que meus versos
já estavam todos atrasados.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Pensando alto


Descobri um mal hábito: penso demais. Penso tanto que fico exausto. Juro, acho que vivo cansado de tanto pensar. Meu pensamento intercala nosso diálogo, ás vezes não te entendo. Não é sua culpa. É esse monólogo interior - esse pensamento no quarto ao lado, na cidade ao lado, no estado ao lado, no país ao lado, no continente ao lado, no universo lá fora, fora até do tempo-espaço. Meu pensamento não segue lei alguma, desafia a gravidade, a realidade, as três dimensões...

Preciso arranjar uma forma de parar de pensar, pelo menos ás vezes. Isso não pode ser normal, pelo menos eu acho (acho o quê!? com que cabeça?) eu penso, não acho nada. Ás vezes imagino os pensamentos dos outros! É o cúmulo. Eu penso tanto que a fala não acompanha, os dedos doem na hora de transcrever. O assunto morrerá insatisfeito. Não faz sentido pensar tanto, não serve a nenhum propósito. Penso dez vezes mais rápido que reajo a um tapa. Até duvido da minha sanidade com alguma frequência. Penso que dá nos nervos. 

A alma tem sempre uma parte proeminente. A alma é mente, vontade e emoção. A minha alma mente, quer dizer, é mais mente. Alguns são vontade, outros emoção, eu contudo... Na maior parte do tempo eu não sinto nada, não desejo nada. Sou nulo total de juízo volitivo ou sentimental, mas o tempo inteiro minha mente está agindo ou sentindo no lugar do resto, decifrando e cifrando, inventando, recriando, analisando. Não confio, senão na minha cadeia lógica de pensamentos, suspeito de toda emoção que sinto, questiono a segurança de toda vontade que quero. Meu pensamento não respeita minha vontade, não tem nenhuma consideração com meus sentimentos!

Me sinto agora ultrajado por mim, meu pensamento me obriga a fazer o que não quero sem dá satisfação alguma, nem fazendo reverência ou dando estima a minha própria estima. Meu pensamento costuma mudar de direção, mesmo enquanto estou o utilizando. Se nega com regularidade dá primazia aos meus interesses, como por exemplo lembrar do que é necessário. Me priva do foco que deveria ter para realizar tarefas mais complexas. Ele se reserva o direito de ter opinião própria - tudo bem, isso foi um exagero, mas é quase isso. Não minto que já presenciei debates entre meu super e alter ego por um dia inteiro. Tá... Isso é útil as vezes, sei que é bom ter um pouco de bom senso em algum ego, pelo menos...

Sei, para alguns deve parecer uma acrobacia exótica - principalmente para quem não é muito mental. Nós que somos assim até se vangloriamos de sermos racionais e imparciais como as letras e os números. Nosso defeito é pensar demais. A gente acaba esquecendo de saber o que quer, saber o que sente - eu só sei o que estou pensando. Agora mesmo, não tô sentindo nada. Não quero nada. Na verdade, minha mente quer e sente no lugar do resto d'alma. Pensamos e ponderamos, então moderamos, e daí analisamos, e repensamos com mais precisão, nas minúcias, uma outra vez é o processo, até o ente pensante perder a paciência com tanto ser pensador.

...E daí, de tanto contar as vantagens e desvantagens, se é positivo ou negativo, bem ou mal, certo ou errado, fácil ou difícil, e tantos valores e dados, estatísticas e perspectivas históricas relevantes e irrelevantes, à vista das lições filosóficas e teológicas e científicas, o fato e contexto, intenção e ato, se doloso ou culposo, se fatorial ou pluri-fatorial, se abstrato ou concreto, se possível ou impossível... Nós ficamos exaustos. Ficamos exaustos de pensar, e ao invés de decidir o que fazer, começamos a reclamar e murmurar do quanto tudo nos é complicado. Tudo fica tão complicado...

O amigo só emoção, a alma dele vai tão fácil fluindo atrás de sorriso sem medo de chorar... Olhamos para o só vontade, e ele vai, por onde quer que vá sem hesitação. E nós ficamos ali, pensando nos outros, mas nunca sabendo como é sentir mais nem como é querer mais, como os outros (pelo menos pensando que os outros são assim). E a decisão aguarda. E nós pensamos, subtraímos, multiplicamos, dividimos, calculamos, pensamos na causa, no efeito, pensamos nos fins e nos meios, ajuizamos valores de perfeito e imperfeito, consideramos cada uma das alternativas, e daí que nada disso serve pra decidir coisa alguma, porque tudo que importa é o que sinto, o que quero - nem parece ser difícil assim. 

Na verdade não é! Porque meu pensamento complica tanto? Porque eu penso, penso mais. Algumas vezes pensar é inutilmente estúpido, principalmente nas vezes em que não sabemos nada, essas são as vezes em que pensar muito é inútil - e como não sabemos de muitas coisas isso é freqüente, são nessas vezes em que ter proeminência da vontade é vantagem, ou que sentir um pouco mais é até mais belo. Nessas vezes nós que pensamos muito sofremos, porque pensar não significa saber decidir, pensar só sabe entender, mas entendendo não estás compreendendo, compreensão não é da razão, é da emoção, nessas horas toda nossa alma distinta parece ser tão eficaz em ser capaz como uma pedra inerte no caminho de Drummond.

Quem pensa hesita. E aí pensando a maior parte de nossa vida desperdiça boas oportunidades por pensar demais. Pensar é bom, mas não tanto. Não o tempo inteiro. Não tenho tanto tempo para gastar pensando, preciso tomar a decisão de parar isso, de dá um basta ou não. E enfim, o texto tá acabando, e eu pensando num fim, numa conclusão. Olho para o caminho, devo ou não devo. Ser ou não ser. Uma frase de efeito para fechar o pensamento. Que teimoso, ele não fecha nunca. Desisto de tentar desistir de pensar, de por um fim, mas já é tarde demais. Existo, logo penso... Maldito René Descartes.


René Descartes

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Homens. Homens não são humanos. Nós homens não somos humanos, apenas fingimos que somos, mas a quem estamos enganando quando nem nós nos convencemos?